27 de junho de 2011

Douglas Dickel: “Até de Beatles as pessoas reclamam!”



(PARTE I)

Jornalista, músico e crítico musical, Douglas Dickel é um atento observador dessa que é, sem dúvida, a principal manifestação artística consumida pela população mundial. No entanto, o ex-editor de MusicZine* , se mostra preocupado com a cena nacional e regional. Mesmo com a massificação das mídias e a facilidade de acesso via internet, muitas bandas e músicos de qualidade nem chegam aos ouvidos do grande público. Pior! Segundo ele, há uma certa “acomodação” dos artistas brasileiros em procurar originalidade e qualidade. Para ele, só a psicoterapia salvaria as pessoas que hoje gostam de Bandas Emo e Sertanejo Universitário. Leia abaixo, a primeira parte da entrevista:

ESPN/RS - Como está a cena musical atualmente?
Douglas Dickel -
No mundo, sempre ótima, com destaque para a canadense, cujo maior expoente é o Arcade Fire, uma banda que se encaminha para o mesmo status que tem o Radiohead, com trânsito entre os chamados alternativos e o mainstream, como o prêmio Grammy, por exemplo. Também são do Canadá New Pornographers, Godspeed You! Black Emperor, Destroyer, Stars, Feist, Braids, Broken Social Scene, Crystal Castles e Aidan Moffat. Quem acompanha o site Pitchforkmedia.com e o "banco de discos" Nodata.tv, percebe que não há nem tempo pra ouvir tanta coisa boa que surge todos os dias.



ESPN/RS - E no Brasil e no RS?
Dickel -
No Brasil e no RS, a situação está pior do que já esteve. De nomes brasileiros atuais dá pra citar a Karina Buhr e a Lulina (pra variar, destaques vindos do Nordeste). O fenômeno da Banda Mais Bonita da Cidade ainda vamos ver no que vai dar. "Oração" é uma música muito bonita. Lobão, que vem desde os anos 80, ainda é destaque, tanto em termos de música quanto em termos de engajamento filosófico. A cena gaúcha está agonizando. Depois de um período com Tom Bloch, Video Hits, Bidê Ou Balde, Irmãos Rocha!, Ultramen e Deus E O Diabo, temos praticamente só as bandas Volantes e Fruet & Os Cozinheiros fazendo algo de qualidade nacional e até internacional. Pelo menos a fase de Stratopumas e Superguidis passou. Um fenômeno interessante em Porto Alegre é que estão se destacando algumas bandas sem originalidade, só por terem sobrevivido, por serem longevas no circuito underground, porque a nata saiu da superfície e deixou o leite translúcido. Ressalto que estão fora lista, pra evitar qualquer injustiça, os Walverdes, que são longevos e nunca se tornaram aguados.

ESPN/RS - Porque a cena brasileira não tem evoluído?
Dickel -
Os artistas musicais do nosso país não sabem fazer, pelo menos ainda, o mais difícil, que é mesclar uma certa ousadia, um certo experimentalismo, com melodias pop, com estruturas confortáveis, que é o que faz do Radiohead esse fenômeno todo. Aqui, ou as bandas são experimentais em excesso, ou convencionais em excesso. É necessário o equilíbio, a harmonia. (continua...)



* MusicZine era um fanzine mensal sobre música editado por Douglas Dickel e por outros estudantes de jornalismo da Unisinos, entre eles os membros da ESPN/RS, Nelson Dutra, Luciano Monteiro e Luciano Seade. Foi fundado em 1997 e durou até o início dos anos 2000. Tinha distribuição gratuita a todos os alunos do campus. Na foto acima, de 1998, Douglas aparece ao lado dos também editores Luciano Zeaudi, Nelson Dutra e Luciano "Perrie" Monteiro.

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