
Patryk Lykawka é um gaúcho radicado no Japão, já vai bastante tempo. No dia 11 de março, quando o terremoto de 9 graus na escala Richter e o tsunami de 38 metros de altura atingiu o país, ele estava em uma das áreas mais vulneráveis. Passado o susto e pouco mais de um mês, Patryk nos relata como o Japão lida com as seqüelas deixadas pela tragédia que vitimou mais de 14 mil pessoas e ainda tem outras 13 mil desaparecidas. Leia abaixo a entrevista exclusiva para a ESPN/RS:
ESPN/RS - Qual cidade tu estás morando? Fica perto de onde aconteceu o tsunami e o vazamento de radiação?
ESPN/RS - Qual cidade tu estás morando? Fica perto de onde aconteceu o tsunami e o vazamento de radiação?
Patryk Lykawka - Higashi-osaka, cidade satélite de Osaka, região de Kansai (onde ficam Osaka, Kyoto, Kobe, etc.). O tsunami afetou a região nordeste do país, que fica longe daqui (600 km pra mais). Já o vazamento de radiação afetou mais a província de Fukushima, que fica a também 600 km daqui.

ESPN/RS - Onde e como tu vivenciaste terremoto? Como foi aquele dia para ti?
Patryk - Estava em Sendai, capital da província de Miyagi, que foi a região mais afetada de todas pelo terremoto e tsunami. Outras duas províncias muito afetadas foram a de Fukushima e Iwate. As três ficam no nordeste do país. Eu tinha ido a Sendai para uma conferência de três dias e aguardava o trem-bala dentro da estação quando o terremoto do dia 11/3 ocorreu. Foram os três minutos mais longos da minha vida. Os terremotos em geral não duram tanto tempo. O fator duração foi o que mais me impressionou, pois achei que a estação não iria aguentar tanto tempo. Felizmente nenhum grande desabamento ou coisa parecida aconteceu onde eu estava. Saí da estação após procedimentos de evacuação. (na foto de Patryk abaixo, as pessoas se aglomeravam na saída da estação de Sendai, após o terremoto)

ESPN/RS – E como foram esses momentos pós-terremoto? O Tsunami chegou até onde tu estavas?
Patryk - Como a estação fica a uns 8-9 km da costa, o tsunami não chegou lá. Eu só ouvi o ruído do mesmo. Como não consegui sair de Sendai naquele dia, acabei indo pra um abrigo emergencial numa escola próxima. Passei a noite lá numa sala escura, no frio, e sem nada. Não havia água, luz ou gás. Não havia comunicação por telefone ou celulares. Ocorreram dezenas de réplicas (não tão fortes quando o terremoto, mas tremia bastante) até o dia seguinte. Foi uma noite longa. Só consegui voltar pra casa depois de três dias!

ESPN/RS - Como está a situação agora?
Patryk - Água e outros produtos de primeira necessidade chegaram a sumir de vários supermercados, principalmente na região de Tokyo durante as primeiras 2-3 semanas da tragédia após o terremoto/tsunami. Agora a situação tá mais "estabilizada", mas há ainda muita destruição nas cidades costeiras daquelas três e outras províncias afetadas. Há mais de 150 mil desabrigados. Há muito trabalho pra fazer pra reconstruir essas regiões além de amenizar o sofrimento das pessoas que moram lá ou que passaram pela tragédia. (abaixo, a orla de Miyagi um dia antes do terremoto)

ESPN/RS - Aqui se fala em grau sete (o maior) da tragédia em Fukushima. Muita gente foi infectada pela radiação?
Patryk - A situação em Fukushima continua grave, mas pelo menos estão conseguindo avançar aos poucos e evitando que a situação piore. O nível sete foi anunciado porque estimaram o total de material radioativo liberado desde o dia 11/3. O problema da radiação está focado numa região com raio de 30 km e alguns vilarejos mais distantes que foram afetados por substâncias radioativas trazidas pelos ventos e pelas chuvas. Como vão levar meses até controlar a situação com as usinas, o problema mesmo está na exposição da radiação a longo prazo dentro dessa região que comentei. Em áreas mais longínquas, os níveis estão muito baixos e não representam problema algum. Por exemplo, os níveis em Tokyo estão apenas um pouquinho acima dos registrados por fontes naturais. Em resumo, não há relatos de que alguém fora "infectado" por radiação. Apenas dois trabalhadores que pisaram numa água radioativa, no entanto já constataram que foi um problema sem seriedade e já saíram do hospital.

ESPN/RS - Os alimentos e a água potável estão infectados?
Patryk - Apenas alguns produtos agrícolas de certas províncias registraram níveis acima do limite padrão, embora não estejam num patamar que ofereça algum risco imediato à saúde. Esses produtos têm sido excluídos da comercialização por precaução. Não há problemas com a água. Em resumo, o problema restringe-se à região de até 30 km em relação às usinas. A maioria do país não apresenta grandes alterações com radiação em nível algum, seja no ar, terra ou água.

ESPN/RS - Como população está reagindo a essa tragédia, passados mais de mês? O governo está mascarando dados ou tem agido da melhor maneira possível?
Patryk - Desde o início a população reagiu de forma extremamente calma, organizada e solidária. Tal comportamento continua até hoje, visto que vários problemas ainda persistem nas regiões afetadas. O governo pode não ser perfeito, mas tem feito o possível desde o início. O país enfrentou uma tragédia de proporções e complexidade absurdos e sem registro em lugar algum na história do planeta. Mesmo que o governo quisesse, não conseguiria mascarar ou esconder informações, porque tem havido colaboração internacional de potências em energia nuclear, além da própria ONU e a Agência Nuclear Internacional. Vários técnicos vieram ao país, fizeram e continuam fazendo medições de radiação, monitorando e acompanhando de perto a situação. O próprio governo japonês tem dado informações detalhadas sobre a radiação em dezenas de cidades. Ele divulga os níveis sobre alimentos, água e o mar diariamente. Essas informações podem ser facilmente acessadas pela internet e confrontadas por autoridadesestrangeiras presentes aqui e por especialistas na área nuclear de todo o país. Fukushima não é Chernobil em nenhum sentido.

ESPN/RS - O que impactou na economia e no dia-a-dia do Japão?
Patryk - O prejuízo da tragédia é gigantesco! Já vi estimativas na ordem de 300 bilhões de dólares. Os setores pesqueiro e alimentício foram severamente afetados em Fukushima. A pesca também foi afetada em outras províncias por causa da destruição dos portos pelo tsunami. O setor turístico também sofreu os efeitos da catástrofe e isso se reflete em todo o país, mesmo que a maioria das regiões não tenha sido afetada em nada. Apesar disso, é bom lembrar que já houve mais de mil réplicas em toda região leste do país desde o dia 11/3. O setor automobilístico também foi afetado, pois depende de peças produzidas no nordeste do país. O setor de exportações pode ter sido afetado também por causa do medo internacional (aliada à ignorância mundial sobre energia nuclear e seus efeitos na natureza) em relação aos produtos made in Japan. Esses são alguns exemplos, provavelmente há mais coisas e fatores de causa-efeito a longo e curto prazos.
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